28/09/2013

Falando sobre moda: Alheios aos processos













Imagens via We Heart It

 Sabendo sobre gotas, ignorando oceanos

Ela era uma moça jovem, com seus quase trinta anos, cabelos escuros e olhos claros. Sorriu pra mim e me disse “Bom dia”.
Ela exalava o cheiro dos cosméticos extraídos de diversas fontes naturais e artificiais, testados em animais, que podem causar dor e irritação. Os animais costumam ser imobilizados (isso evita que se mutilem arrancando os próprios olhos, também é comum o uso de clipes de metal nas pálpebras para manter os olhos da cobaia sempre abertos) e no final, o animal é sacrificado para análise dos efeitos das substâncias em seu organismo. Pensei no seu colar de pérolas, produzidas a partir de um molusco na reação a corpos estranhos que invadem o seu organismo. A ostra solta a substância chamada madrepérola sobre o invasor e forma uma esfera perfeita. O tempo de maturação das pérolas é de três anos. Por serem raras, viraram sinônimo de sofisticação e símbolo de Coco Chanel, Audrey Hepburn e Jackie Kennedy. Seu vestido de algodão estampado, carregava o histórico da utilização de resíduos tóxicos de pesticidas e agentes para preservação da plantação, o uso de fertilizantes artificiais, a poluição através dos efluentes dos processos de tingimento e acabamento incluindo corantes, fosfatos, metais pesados e agentes de complexação e finalmente os resíduos resultantes do processo de fabrico. Na sua bolsa de couro, ela carregava histórias do Egito antigo, onde já se utilizava pedaços de couro curtidos para fabricação de objetos, assim como na China três mil anos A.C. A partir do século VIII, os árabes introduziram na Península Ibérica a indústria do couro artístico. Em Pérgamo desenvolveram-se, na Idade Antiga, os célebres "pergaminhos", usados na escrita e que eram feitos com peles de ovelha, cabra ou bezerro. Com o couro eram feitos, também, elmos, escudos e gibões. Os marinheiros usavam-no nas velas e nas embarcações de navios. Olhando sua meia-calça, me lembrei das mulheres na primeira metade do século XX, que deram vida a uma verdadeira revolução no comportamento social. As meias de náilon faziam as mulheres se sentirem mais sensuais, e queriam que suas meias aparecessem até mesmo em saias compridas. Durante a guerra, o náilon era usado para confecção de paraquedas e outros objetos militares, sumindo do vestuário feminino. A solução que elas encontraram foi um tanto criativa e absurda: desenhavam, atrás de suas pernas, a marca da costura da meia, para se sentirem usando-as novamente. Seu sapato de plástico me fez lembrar de Leo Baekeland, que criou o primeiro plástico totalmente sintético e comercialmente viável, o Bakelite. Ele deu início a era dos plásticos modernos, feitos à base de petróleo, carvão e gás natural. A chave desse novo processo foi a polimerização. Desde então, centenas de plásticos foram criados pelas empresas petroquímicas para as mais diferentes utilidades, como o poliéster, de 1932 e o próprio náilon, de 1938.
Achei irônico o fato de desprezarmos a moda e considerá-la precipitadamente de fútil, sem pensar nos seu sistema, seu processo. Como podemos apenas escolher não nos envolver? Como podemos fechar os olhos para esse sistema? Existe muita coisa que precisa ser discutida, transformada, mas a moda é encantadora e pode trazer uma riqueza incrível de detalhes envolvendo história, economia, sociologia, arte, tecnologia e tantas outras áreas, bem diante dos nossos olhos. Mas, é sempre assim costumamos ignorar o que realmente importa. 
Apenas sorri de volta e respondi: “Bom dia”.



13 comentários:

  1. caramba, gostei do texto *-*
    ah eu quero ler todos aqueles livros da wishlist porque dizem que são ótimos... espero q assim q eu ler, eu faça resenha no blog! aí vcc vê se topa ler tb, beijo.

    http://teoremanath.blogspot.com.br/

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  2. realmente existe muita coisa na moda que não é discutida nem revista simplesmente porque é considerada "fútil", existe abuso de animais e pessoas por trás de grandes marcas famosas. É complicado :(
    http://trendingvogue.blogspot.com.br/

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  3. Seu texto ficou muito bom,existem por trás de tudo aquilo que compramos e não conseguimos nem imaginar.
    beijos;*
    Loh

    redlipsandiamonds.blogspot.com

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  4. Adorei o texto *-*
    http://b-uscandosonhos.blogspot.com.br/

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  5. Lindo texto, amei *-8

    Post novo, tô te esperando lá viu? ♥

    BLOG: http://tudodiferentecomsamaralima.blogspot.com.br/
    Instagram: @samaralima_03

    Big beijos, *-*

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  6. amei seu texto!
    me deu até uma saudade da faculdade, pois estudei sobre tudo isso!
    acho que só quem estuda moda olha para esses sórdidos detalhes... e pensar que até essa indústria foi afetada nos anos de guerra... e as pessoas pensam que é só cortar um pedaço de tecido e costurar!... simples assim!
    a questão é que ninguém vive sem a moda. Ninguém fica sem comprar roupas novas, sapatos novos, cosméticos que te prometem uma beleza inigualável... somos todos reféns desse sistema.

    Bom fim de semana!

    "A casa da Mi"

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  7. suuper interessante esse texto!
    não sabia de várias coisas!
    Beijos!

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  8. Adorei o texto!
    Sou super a favor do consumo consciente e tento me informar o máximo que posso pra poder saber o que realmente estou consumindo. Bacana a sua atitude de incentivar esses questionamentos. Parabéns!
    Bjs
    ;***

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