09/07/2014

Falando sobre a Copa: Alemanha x Argentina

Imagem via Weheartit

Desconstruindo a pilhéria

Como vocês sabem, me recusei a falar sobre a Copa do Mundo no Brasil aqui no blog. Depois que vi esse vídeo, percebi que não era errado eu gostar de futebol, acompanhar os jogos pela TV, me encantar com esse espetáculo e ao mesmo tempo me sentir mal por ele estar acontecendo no meu país. Por isso, assisti aos jogos, mas não fiz alarde, me mantive apática.
Torci pela minha seleção, tive esperanças e sofri com as tristezas. Mas, me senti na obrigação de vir aqui hoje e ter uma conversa sincera sobre futebol e cultura com vocês. Não sei se já mencionei por aqui, mas tenho uma íntima relação com os países que disputarão a final dessa Copa. Para que tudo fique mais organizado, vou começar pelo começo.
Foi da Alemanha que vieram meus tataravós e boa parte da família do homem que viria a ser pai da minha mãe (calma, essa história não será tão longa quanto parece). Eles se estabeleceram em Santa Catarina, na primeira colônia alemã do estado, São Pedro de Alcântara, povoada por imigrantes vindos do sudoeste da Alemanha, que chegaram na região em 1829.
Não sei boa parte da minha história por falta de documentação e registros, não sei pelo que essas pessoas passaram e como viviam. Mas, um relato sobre a infância da minha mãe sempre me deixou alarmada: meu avô, descendente de alemães, estava terminantemente proibido de falar alemão. Isso aconteceu porque minha avó, de origem açoriana, era desconfiada e não gostava de não saber o que ele estava falando. Ela nunca se interessou em aprender alemão e nunca deixou que minha mãe e meus tios aprendessem.
Antes do meu avô falecer, conversávamos muito sobre esse tema, eu sempre fui muito curiosa e importunava ele para que falasse algumas palavras em alemão. Apesar da falta de hábito, lembro perfeitamente dele tentando me ensinar e dizendo "fleisch é carne". De alguma maneira isso mexe profundamente comigo e me sinto impotente, pensando nas coisas que esses imigrantes provavelmente passaram ao chegar aqui e pensando em tudo que eu poderia ter aprendido se fossemos pessoas mais abertas.
O estranho é que, no ano que meu avô faleceu, 2007, foi quando fiz minha primeira viagem pra Argentina. Apresentei um projeto fotográfico para realização de um intercâmbio pelo colégio. Fui para Córdoba e morei lá por dois meses e dentre as coisas que eu sabia deste país, o que eu mais ouvia eram piadinhas. Desde pequena, escuto coisas do tipo:

O presidente argentino, em visita oficial ao Brasil, iria conhecer uma escola de Brasília. E o diretor da escola foi preparar seus alunos para receberem a visita:
- Vocês devem ser educados com o senhor De la Rua. Joãozinho, eu vou perguntar a você o que é a Argentina para nós. E você responderá que a Argentina é um país amigo.
- Não, diretor! A Argentina é um país irmão.
- Muito bem, Joãozinho. Mas não precisa tanto. Diga apenas que a Argentina é um país amigo.
- Não é não, a Argentina é um país irmão!
- Tá bom, Joãozinho. Por que você acha que a Argentina é um país irmão, e não um país amigo?
- Porque amigo a gente pode escolher!

Tudo bem. É piadinha, é pra ser engraçadinho. Mas, de alguma maneira, estamos ensinando as pessoas a sentirem xenofobia, a acharem que os argentinos não prestam e que todos brasileiros devem odiar os argentinos, naturalmente. Eu nunca entendi isso, nem via graça nessas coisas. Argentinos são pessoas, em primeiro lugar. Posso dizer, pelo pouco que conheço da Argentina (fui para lá apenas duas vezes e só conheço duas províncias), que é um país lindo, receptivo e que vale muito a pena investir cada centavo pra visitá-los.
Durante o intercâmbio que fiz, uma menina argentina ficou em minha casa, meus pais adoram ela e mantemos contato, ainda que remoto, até hoje. Sinto que eu pude mostrar um pouco pra minha família que esse discursinho de que a “Argentina é inimiga” é besteira.
Reproduzimos, até sem saber ou perceber, essas ideias de ser contra o outro, de que o nosso é melhor, de que quem é nativo merece mais respeito. Gente, por favor, gostaria muito que saíssemos do modo automático e passássemos realmente a pensar no que estamos fazendo ou falando, só de vez em quando.
Depois que comecei a ver essas propagandas idiotas na Copa, principalmente essa da Skol, que zomba dos outros países e de sua cultura, fiquei mais revoltada ainda. Como podemos achar isso engraçado? Isso é extremamente ofensivo. Sério, sair dizendo que ninguém conhece o hino da Argentina (gente, eu não conheço nenhum outro hino que não seja o do Brasil – talvez algo do hino dos Estados Unidos por conta dos filmes, mas nem isso) e que queremos mandá-los de volta? O quão ridículo isso é?
Estamos nos colocando como superiores, por alguma razão que desconheço e arriscando toda nossa reputação, humildade e modéstia. Com isso, cheguei a conclusão de que isso é algo extremamente enraizado na nossa cultura, o que só me deixa mais decepcionada. Da mesma maneira que sinto que os alemães foram repelidos ao chegarem aqui, pelos outros brancos nativos (porque os índios nem entrariam nessa discussão, foram massacrados por todos) lá no século XIX, os argentinos sofrem constantemente com esse preconceito.
Não quero nem entrar nos méritos de discutir o futebol, embora eu tenha as minhas opiniões, mas vi narradores de televisão dizendo que a Holanda venceria fácil a Argentina ou mesmo zombando da seleção Argentina em pequenos gestos. Porque desmerecemos tanto essas pessoas? Para mim, eles merecem estar onde estão e devíamos estar torcendo por eles, por serem da América do Sul e estarem representando algo mais próximo de nós.
Acho que mais do que qualquer coisa, o Brasil precisava que a Argentina vencesse esse jogo. Eles vingaram nossa derrota ridícula para a Holanda na copa passada e ainda jogaram um futebol muito mais bonito (até onde sei, por dados estatísticos, são a equipe menos faltosa da Copa e mesmo sem o craque Di Maria, sambaram nos adversários).
Por isso, seja lá quem for que ganhe essa copa – e de fato, não seremos nós – comemorem. Nem que seja internamente, com uma sensação de paz interior. Ninguém gosta de perder, mas o mais bonito que podemos fazer agora é celebrar uma das coisas mais legais da Copa: a união das pessoas dos mais remotos cantos do mundo! Existem pessoas más e boas em qualquer lugar, sejamos então, as pessoas boas.
Enfim, estou me estendendo. Só queria levantar essa discussão aqui e pedir pra vocês que me leem: não odeiem as pessoas sem motivo. Não levantem rancor e picuinhas pelo próximo. Sério, por mais pequeno que pareça um gesto de falar mal dos hermanos e caçoar deles, essas atitudes podem ter outras consequências (e pior: são repetidas por gerações e se apresentam das mais diversas maneiras). Só peço que vocês pensem antes de saírem gritando aos quatro ventos inverdades.





13 comentários:

  1. E sabe o pior, a quantidade argentinos que vejo fazendo a mesma coisa com o Brasil, dizendo que foi bem feito o Neymar ter quebrado a coluna e tudo mais
    é bem recíproco esse ódio, e acaba naquilo de ninguém mais sabe o motivo que originou tudo isso, simplesmente se cutuca o outro, e o por que? Ninguém sabe. Parece uma famosa guerra santa infinita, onde pessoas ainda hoje sofrem as consequências de um passado muito distante.

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  2. Acho ridículo essas briguinhas por futebol, algumas vezes são ate engraçadas, mas podem ter outras consequências.
    http://luludeluxemburgo.blogspot.com.br/

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  3. Eu não critico totalmente o brasileiro pela implicância porque lá eles fazem isso também com a gente. Mas eu vou pelo meu coração... E sou super fã do Messi e torço sim pela argentina! Dane-se que rola essa palhaçada que nem sei porque! Beijos

    http://balacaramelo.blogspot.com.br/

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  4. Nossa belo texto Thayse, e algumas coincidencias, eu nem sei pra quem eu iria torcer mais nessa copa, a argentina fica na america do sul mas por outro lado acho que a alemanha merece! Thayse, fiz um blog pessoal, se puder me dá uma ajudadinha curtindo lá! ;)

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  5. Eu concordo bastante com o que você disse. Claro, piadas são piadas e é preciso levar algumas coisas sim com senso de humor, mas em alguns casos passa de uma situação engraçada pra uma perseguição com um motivo oculto que ninguém sabe. Acho que se a gente realmente é superior a outra nação, então deveríamos tratá-la com igualdade.

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  6. Nossa, que texto sensacional, Thayse, sério. Eu acho que o país inteiro deveria ler pra ver se se toca.
    Eu particularmente nunca entendi essa rivalidade idiota da Argentina com o Brasil e não vejo graça nas piadinhas até hoje. Quer dizer, sei que tem os motivos, mas aaaaaanos já se passaram e eu não entendo porque a população não faz que nem Pokemons e não evolui de uma vez na vida! E disse tudo, incentivar a xenofobia é ridículo.
    Adorei muito esse texto, mandou super bem! E vamos ver como sai essa final da Copa né? hehehehe

    Beijos da Tabatha!
    www.naocontapraninguem.com
    www.youtube.com/blogncpn

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  7. Oi, Thayse! Adorei o texto, mas acho que discordo um pouquinho de você.
    Entendo que para algumas pessoas, Argentina deveria ser riscado do mapa, e que argentinos não prestam e bla bla bla.
    Mas acho que nossa rincha é apenas uma questão de "meu cavalo é maior que o seu". Claro, existem disputas bem maiores entre grandes nações por ai, mas a nossa é apenas o eterno Pele x Maradona.
    Os argentinos vieram em peso pro Brasil, e até onde sei, estão empolgados com a hospitalidade do nosso povo, coisa que, apesar dos pesares, eu não duvido.
    Estamos um do lado do outro, e essa briguinha é coisa resolvida no campo. Se eu quero que Argentina ganhe a Copa? Claro que não! Defendo minha seleção e sempre vou dizer que o Pelé samba na cara do Maradona. Mas se eu ofenderia um argentino visitante pelo simples fato de ele ser argentino, de forma alguma.
    Que qualquer forma, adorei ler seu texto e ver sua forma de pensar, :)
    Beijao, Ana do dia

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  8. Foi uma pena o Brasil não ter conseguido chegar à final, mas não conseguiram encontrar forças para superar a pressão de um começo de jogo demasiado mau... Assim mesmo é o futebol. Gostei do teu relato e das histórias que contaste :)

    http://ummarderecordacoes.blogs.sapo.pt/

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  9. Concordo com voce deviamos torcer agora pela America do Sul, mas os brasileiros prefere perder para Europa :(
    Bjinhos ♥
    http://sarranheira.blogspot.pt/

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  10. Oi, Thay, me identifiquei, meu pai é alemão e tenho muitos, muitos amigos argentinos que amo.... Meus hermanitos, no bom sentido.

    Bjos
    http://chuvadecamelias.blogspot.com.br/

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  11. Acho feio dimais isso tipo muitos tem raiva e tal da argentina mais acho que nada eles sao um povo com uma cultura e tem respeitar so isso agora fica ai fazendo ´pirrasas ou coisa do tipo e feio dimais .... ... eu tenho amigos da alemanha e amo todos ...

    beijos http://loucaapaixonada22.blogspot.com.br/

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  12. Eu acho meio ridículo isso de Brasil X Argentina sabe! Acho que a rivalidade nasceu no futebol mesmo! E ouvimos isso desde criança, então, se não crescermos com uma visão crítica das coisas, acabamos entrando no mesmo caminho!
    Eu confesso que não irei torcer pela Alemanha, sei lá, pela tristeza que foi o ultimo jogo, mas apensar de saber que eles irão ganhar, pois estão muuuito preparados! Então não vou torcer para ninguem! rs É difícil isso, mudar os pensamentos qundo você escuta em casa mesmo, algumas piadinhas! E o que mais tem na TV é isso né, o incentivo da rivalidade contra os Argentinos! Infelismente!
    Beijos! ♥
    www.pequenamenina31.blogspot.com.br

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  13. Meu Deus, Thay, que texto bonito! Não sabia sobre a origem da sua família e acho que nem sobre a sua estada na Argentina.
    Sabe, me peguei em pleno preconceito bobo e aparentemente sem motivo nenhum! Li esse texto, guardei um pouquinho o link aqui e fiquei pensando... A gente cria tanta minhoca na nossa cabeça por falta de sabedoria ou conhecimento. Li umas duas matérias que me deixaram com vontade de torcer pra eles - Argentinos! Além do seu texto, claro, que abriu o meu olhar. Obrigada por isso! :)
    Parabéns pelas palavras... E pela discussão MEGA importante! ♥ Jornalismo é isso.
    Beijo
     Just Carol

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