16/05/2015

Falando sobre sair da rotina: Olhares







Sob um céu de Blues

Já contava alguns dias que eu sabia que precisava ir, seguir adiante, mas de alguma maneira, mudar os ares também. Não estava mais fazendo bem ver sempre as mesmas paisagens pela janela e as mudanças ínfimas ou pouco significativas dos detalhes. É como se o próprio mecanismo do olhar estivesse quebrado, condicionado a jogar tudo para o canto, sem prestar atenção na beleza do todo. Então, claro que tinha alguma coisa errada, pois há beleza. Eu sei que há.
Foi aí que percebi que eu precisava apurar minha sensibilidade para alguma oportunidade que surgisse de dar uma respirada, sair da bolha. Aconteceu na sexta-feira, quando recebi o convite dela e recusei porque eu teria que faltar uma aula na faculdade. Mas, aquele pensamento não me largou. Como eu posso simplesmente ficar parada e ver a vida passar, ou simplesmente frequentar a aula de modelagem como se estivesse tudo bem?
Na reunião que ocorreu naquela sexta, no final da manhã, eu já não pensava em outra coisa. Sempre me sentindo alheia e, até certo ponto, invisível, resolvi que eu tinha que sair logo e fazer alguma coisa a respeito da minha situação. Porém, a cidade já não andava ao meu favor, nem os pensamentos negativos. Tudo lotado, tudo cheio de falta de significado. Só segui com o fluxo, como pude, até me dar conta que estava atrasada e talvez tivesse perdido a oportunidade de dar uma simples arejada, que poderia mudar tudo.
Foi então que decidi: vou apenas fazer as coisas no meu ritmo. Almocei sozinha, fui para casa sozinha e larguei os trabalhos inacabados em cima da escrivaninha. Abracei minha cama ainda desarrumada da noite passada e segui para o mundo dos sonhos. Quando acordei, pensei que ainda poderia fazer as coisas acontecerem. Tomei banho, me arrumei e coloquei algumas dúvidas na mochila, como de praxe. Segui para a faculdade, assisti àquela aula mais inquieta do que nunca. Larguei tudo pela metade, como é do meu feitio e resolvi convidá-lo também, para resolvermos as coisas no caminho e aproveitarmos as pequenas chances que a vida nos dá de nos reconciliarmos com nós mesmos.
Ele aceitou. Aceitou correndo. Organizou a mochila e ainda trouxe umas coisas que esqueci. E nós partimos naquela noite fria, para uma pequena aventura, fora das capitais. Pronto, eu já estava bem. Eu já estava feliz em estar ali, com ele, mudando a rotina, sentindo que eu poderia, sim, construir minha vida. Tudo poderia ser diferente, eu senti que estava fazendo algo fora do automático e só aquilo já me deixava menos engessada e vazia. Mas claro que sempre há mais. O caminho foi tranquilo e logo nós estávamos lá, no frio e famintos, às 23h da noite.
Ela nos aguardava na ponte, sobre aquele rio imenso e assustador. Pode ser que tudo seja por conta das situações vividas, do estado de espírito, dos pontos de vista. Mas, assim ela se parece pra mim: misteriosa e fúnebre. Mas não se trata de algo ruim ou pejorativo, é algo familiar e, até, encantador. No dia seguinte, ela amanheceu como eu sempre a vi e penso que nunca verei de outra forma: coberta com uma neblina desconfiada. Quem a vê de fora se engana, sempre acha que é fria, quando na verdade ela é muito mais calorosa do que se imagina. São os espíritos do passado nos abraçando. Nos abraçam através das casas, nas esquinas e nas travessias. Em cada detalhe, cada fantasma da história, ela nos abraça e até tenta nos ensinar algo, que parece em vão. A persistência parece até teimosia, de tanto sofrimento que o largo rio já trouxe, mas a vida segue em curvas apagadas.
Foi rápido, mas foi justo. Quando me dei conta, já era hora de ir e deixar pra trás os seus blues. Estranhamente, ela foi desaparecendo na paisagem, ficando pra trás por entre as ruas, construções, pastos e ruas. E construções. E pastos. E o comum foi tomando conta dos olhos novamente.




3 comentários:

  1. Que lugares lindos!


    Um beijo grande e muito GORDO
    http://overdosederosa.blogspot.com.br/


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  2. É tão bom sair da rotina ás vezes, é preciso. Adorei as fotos!

    http://heyimwiththeband.blogspot.com.br/

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  3. que delicia de texto, adorei nada como sair da rotina =)
    super entendo essa aflição e agonia de deixar um convite em aberto rsrs

    bjos
    kammy
    Comer, Blogar, Amar

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